Uma nova publicação lançada em São Paulo joga luz sobre a participação de bancos, metalúrgicas e fabricantes de veículos na sustentação da ditadura militar brasileira. O trabalho investigativo detalha como o setor corporativo colaborou diretamente com o regime na perseguição a trabalhadores.
Repressão Sociedade Anônima
Assinado por Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, o volume é fruto de três anos de análises documentais e entrevistas com operários, com forte foco nas indústrias do Grande ABC Paulista.
“A gente teve informação de muitas empresas, mas focamos em cinco delas: a Mercedes-Benz, a Volkswagen, a General Motors, a Scania e a Ford. Centramos [o trabalho] na região do ABC e nas grandes metalúrgicas”, explicou Reina, em entrevista à Agência Brasil.
Os autores apontam que o apoio financeiro e logístico ia muito além do habitual. “Elas financiavam com dinheiro a máquina da repressão. E como a coisa foi surgindo? A gente estava analisando os livros de registro de entrada do Dops [Departamento de Ordem Política e Social] aqui no Largo General Osório [na capital paulista] e ali descobrimos uma lista de ramais. Nessa lista tinha um ramal de um estande de tiro. E descobrimos que algumas empresas financiavam equipamentos para esse estande de tiro tais como munições e até compra de protetor auricular. O protetor auricular era a GM quem financiava”, disse Reina.
Estratégias de infiltração e listas sujas
A cumplicidade empresarial se manifestava também por meio da inserção de agentes infiltrados nas linhas de montagem para monitorar o clima político.
“Os arapongas eram pessoas que se misturavam ali com os trabalhadores e que depois iam dedurar quem estava fazendo reivindicações”, disse ela.
As consequências para quem protestava eram severas e duradouras. “Havia um conjunto de ações que as empresas adotavam para reforçar ou firmar essa cumplicidade com a ditadura e ir expulsando os trabalhadores. Por exemplo, se o trabalhador participava de uma greve, ele não precisava nem ser de um partido de oposição ou de combate à ditadura, se ele participava de uma greve, ele já entrava numa lista. Essa lista, que hoje a gente chama de lista suja, era espalhada para várias outras empresas, então ele nunca mais conseguia emprego”, contou a pesquisadora.
Condições degradantes e o Dopinho do ABC
O livro também dedica espaço às péssimas condições de trabalho e ao controle abusivo sobre as mulheres nas fábricas, que sofriam com assédio e vigilância rigorosa até para ir ao banheiro.
“Elas precisavam pegar uma chave para usar o banheiro. Se demorassem mais do que 3 ou 4 minutos, já tinha gente batendo na porta. Em outras empresas, o papel higiênico ficava em cima da mesa do chefe. Ela tinha que ir lá e pegar uma cota [de papel]. Então, se acabava o rolinho dali, elas tinham que se virar no banheiro, levar de casa ou fazer o que fosse possível”, relatou.
Além disso, os jornalistas localizaram indícios de uma unidade clandestina de repressão na região industrial paulista. “A gente descobriu a existência de uma filial do DOPS no ABC que ficava a três ou quatro quadras distante da sede do sindicato. Lá, as pessoas eram presas e torturadas. Para lá iam presos os trabalhadores, pessoas ligadas aos movimentos eclesiais de base ou de movimentos de melhoria nos bairros. A gente conta a história, inclusive, de um menor de idade que foi preso e torturado ali”, disse Eduardo Reina.
Posicionamento das montadoras
Questionadas, as empresas adotaram diferentes posturas sobre as acusações levantadas no material. A Volkswagen destacou que firmou um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público, sendo pioneira na revisão histórica de seus atos durante o regime.
A Scania afirmou repudiar abusos aos direitos humanos e alegou não possuir mais arquivos da época. A Mercedes-Benz declarou que não encontrou registros de apoio à ditadura. A General Motors negou qualquer envolvimento com práticas repressivas, enquanto a Ford optou por não se pronunciar aos autores.
“Eu acredito que a ditadura sobreviveria [sem a participação empresarial]. Mas ela sobreviveu de uma forma muito mais escalonada com a participação dessas empresas”, concluiu Ferrasoli.









