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Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 anos de história

Criado em plena ditadura, o festival paulista sobreviveu a censuras, crises financeiras e até à pandemia para se consolidar como gigante mundial.

Em outubro de 1977, nascia no Museu de Arte de São Paulo (Masp) a primeira edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Organizado pelo crítico Leon Cakoff, o evento integrou as comemorações dos 30 anos da instituição e atraiu mais de 15 mil espectadores ao longo de 11 dias, exibindo 23 produções de 17 países.

As origens e surpresas do festival

Apesar da divulgação limitada na época, o festival logo conquistou fiéis frequentadores. O jornalista Ubiratan Brasil, conhecido como Bira, lembra de uma sessão quase vazia em 1992, na 16ª edição do evento, no Masp. “Eu fui em uma sessão em um sábado de manhã, ao meio-dia, lá no Masp. Se tinha 16 pessoas era muito. E o diretor do filme estava lá. Antes de começar o filme, ele elogiou a gente e disse: ‘Obrigado. Lá fora está um sol, é sábado e vocês estão aqui dentro vendo o meu filme’”, relatou.

O longa exibido era Cães de Aluguel, e o cineasta iniciante era Quentin Tarantino. “Naquele dia a gente conheceu Quentin Tarantino que jamais voltará a ter um filme [exibido] com apenas 16 pessoas presentes em uma sala. A mostra trazia isso, essas boas surpresas que depois se confirmariam no futuro”, afirmou Bira. O jornalista ainda destacou o papel pioneiro da iniciativa: “Como muitas pessoas falam, a mostra abriu as portas do cinema mundial para nós, paulistas principalmente. Os cinemas aqui passavam só blockbusters, só os americanos. Você nunca tinha a chance de ver um filme chinês, um filme coreano, um filme cubano. E a mostra era realmente uma aventura porque hoje é muito mais fácil, tudo é legendado. Naquela época, você entrava pra ver um filme indiano com legendas em italiano. Eu não falo italiano, então eu ficava mais observando as imagens e tentando entender um pouco da história. Tinha um pouco esse grau de aventura e de descobertas, que era muito gostoso”.

Janela para o mundo e resistência cultural

Para a aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa, que acompanha o festival desde a estreia, o evento funcionava como um refúgio intelectual. “Apesar de poucos filmes, comparado ao que ela agora se tornou, esta foi uma janela extraordinária para o mundo que não conhecíamos. Aquele era um período de ditadura e tudo era censurado. O Cakoff contornou aquela situação magistralmente e foi aprimorando a mostra a cada ano”, declarou. Ela recordou ainda que “Era um portal de alumbramento. Quem experimentava aquela vivência, via de regra, retornava nos próximos anos. Nos primórdios, os filmes eram de graça”.

Vanda também ressaltou a importância formativa da maratona cinéfila: “Vários ‘mostreiros’ [como são chamados os frequentadores do festival] se profissionalizaram como diretores ou críticos de cinema. Até o ano 2000, quase não tínhamos acesso à internet. Isso era algo restrito para a área de tecnologia. Então, o diferencial da mostra sempre foram os filmes fora do mainstream [da corrente predominante]. Ela era um canal para a gente ter contato com imagens, linguagens e comportamentos de outras paragens e, sobretudo, ter a percepção crítica além da tela”.

Resiliência e o cinquentenario

Ao longo de cinco décadas, a maratona cinematográfica contabilizou a exibição de 11.692 filmes assinados por 8.474 diretores globais, recebendo nomes consagrados como Wim Wenders e Pedro Almodóvar. Nem mesmo períodos de crise financeira ou de isolamento social impediram a realização do evento, que se adaptou com exibições online e em formato drive-in.

Renata de Almeida, atual diretora da mostra, resume a trajetória da iniciativa: “Acho que o segredo da mostra é que ela é elástica, ela pode ser mega ou enorme, como neste ano em que estamos comemorando 50 anos, como ela também pode ser pequenininha. Eu acho que a gente tem que saber dançar conforme a música”.

Para celebrar o cinquentenário, a programação atual conta com 380 filmes de 93 países, além de exposições, debates e lançamentos literários. Renata assina a obra Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. “É um livro sobre as histórias da mostra, mas também sobre a minha vida e sobre as minhas histórias dentro da mostra. É um livro de encontros. Foi também um retrospecto de entender várias coisas que aconteceram com a vida e me revisitar em outras épocas e outras idades”, concluiu a diretora, que atua na gestão do festival há 37 anos.

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