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Gaza completa três anos de guerra com plano de paz travado

Bombardeios diários e crise humanitária sem precedentes marcam o cenário na Faixa de Gaza após três anos de conflito.

O conflito na Faixa de Gaza completou três anos nesta quarta-feira (7), marcado pela continuidade dos bombardeios diários e pela estagnação do chamado plano de paz mediado pelos Estados Unidos, enquanto as forças israelenses mantêm o controle de 60% do território palestino.

Crise humanitária e escassez de recursos

Dados do Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (Ocha) revelam que os ataques aéreos israelenses continuam atingindo zonas densamente povoadas. Entre 23 e 30 de setembro, o Ministério da Saúde local registrou 29 mortes de palestinos e 147 feridos, elevando para 1.431 o número de óbitos desde o anúncio do cessar-fogo, quase um ano atrás.

A professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) Isabela Agostinelli avaliou, em entrevista à Agência Brasil, que a situação dos quase 2 milhões de palestinos “não melhorou em nenhum sentido” com o suposto cessar-fogo.

“A situação humanitária ainda é catastrófica. Pouca ajuda humanitária sendo permitida de entrar por parte de Israel, que continua sendo o ator soberano que controla as fronteiras. O Conselho de Paz presidido por Trump não trouxe paz em nenhum sentido, não há perspectiva de reconstrução de Gaza”, afirmou a especialista.

Além disso, o Ocha alertou que a produção de refeições quentes sofrerá forte redução neste mês devido à escassez de financiamento, já que apenas 40% dos US$ 4 bilhões solicitados para auxílio humanitário foram repassados. A estimativa é que 1,4 milhão de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda até o fim do ano.

Impasse político e desarmamento

O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Bruno Huberman explicou à Agência Brasil que um dos impasses no “plano de paz” do presidente dos EUA, Donald Trump, é o fato de o Hamas apenas aceitar se desarmar depois que Israel deixar Gaza, o que não tem ocorrido.

“Para Israel desocupar Gaza, eles falam que o Hamas tem que se desarmar. A gente está nesse impasse, e os EUA não estão se colocando para destravar esse impasse”, comentou o coordenador do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (Geci) da PUC-SP.

O pesquisador também apontou que Israel bloqueia o retorno do comitê tecnocrático palestino encarregado de monitorar a reconstrução do enclave.

“Esses palestinos foram ao Cairo para discutir a reconstrução de Gaza em novembro do ano passado, quando Trump anunciou o plano de paz. Desde então, estão exilados no Egito porque Israel proíbe a sua entrada em Gaza. Isso é um exemplo de como Israel impede qualquer esforço para reconstrução”, destacou.

Em paralelo, o governo israelense condiciona a transição do governo civil do Hamas ao Comitê Nacional para Administração de Gaza (NCAG) à desmilitarização total dos grupos palestinos.

Milícias e desesperança palestina

Enquanto o cenário político permanece bloqueado, relatórios indicam o financiamento de milícias locais por parte de Israel para disputar o controle territorial com o Hamas.

“Esse cessar-fogo foi uma falácia. Claro que as bombas deixaram de cair de forma constante, são menos bombas caindo em Gaza, mas os palestinos continuam sendo mortos, direta ou indiretamente, pelas políticas israelenses levadas a cabo naquela região”, concluiu Isabela Agostinelli.

O impacto psicológico sobre a população também é profundo. Bruno Huberman relatou que o conflito gerou um nível inédito de desesperança e apatia entre os palestinos.

“Os palestinos sempre foram muito famosos por manter um brio na resistência muito grande, apesar de qualquer revés. Mas o pouco contato que tenho com os palestinos que estão lá, e também com os palestinos que vivem fora e vão visitar, é uma desesperança que, para mim, é inédita”, disse.

Para o analista, a ofensiva do Hamas representou um erro estratégico que gerou um custo humanitário imenso, enquanto o cenário político interno em Israel eliminou as correntes moderadas favoráveis à coexistência pacífica.

Expansão na Cisjordânia

A violência e a colonização também se intensificaram no outro território palestino ocupado desde o início da guerra atual.

“A Cisjordânia vem acompanhando a expansão desenfreada dos colonos, dos assentamentos e a tentativa de expulsão dos palestinos das próprias casas. A violência de colonos contra a população palestina tem a anuência do próprio Estado israelense”, ponderou Isabela Agostinelli.

Diante do aumento das pressões e do isolamento da liderança tradicional, a Autoridade Palestina marcou eleições legislativas para o próximo dia 28 de novembro, buscando renovar o Parlamento e reorganizar a representação política palestina.

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