A espera por respostas sobre a morte de Kathlen Romeu chega a uma etapa decisiva após cinco anos de dor e mobilização da família. Os policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano serão julgados pelo Tribunal do Júri no próximo dia 26 de novembro, às 10h, pelo assassinato da jovem e de seu bebê durante uma ação no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio de Janeiro.
O crime que mudou a história de uma família A comerciária Jacklline de Oliveira e o professor de educação física Luciano Gonçalves lembram com saudade da única filha, que completaria 30 anos. Grávida de quatro meses, Kathlen foi atingida por disparos quando visitava a avó na comunidade. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro apontou que os agentes atiraram em direção ao local onde ela e a avó caminhavam, contrariando a versão de que miravam em criminosos.
“Kathlen era uma filha intensa e amorosa”, recordou Jacklline. “Sempre foi muito sonhadora, tinha vontade de ser modelo, ficar famosa, ganhar o dinheirinho dela”.
Os réus chegaram a ser absolvidos de fraude processual na Justiça Militar, mas a promotoria recorreu e obteve a condenação na 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Atualmente, os policiais respondem em liberdade e estão afastados de suas funções.
A luta por reparação e o apelo à sociedade Durante a entrevista, os pais cobraram uma postura firme da população contra a letalidade policial e em defesa de políticas públicas que protejam vidas nas periferias.
“Eu entrarei naquele tribunal com a esperança de que a sociedade civil, aquela que chorou comigo, que teve solidariedade, que se indignou em 8 de junho de 2021, seja a mesma aqui, no dia 26 de novembro de 2026, que continue com a gente”, frisou a mãe de Kathlen.
“Se esses policiais não forem punidos, não forem condenados, a sociedade civil também estará matando Kathlen Romeu e o seu bebê”, afirmou ela.
O casal também relembrou as dificuldades enfrentadas para que o processo avançasse, incluindo denúncias contra a atuação inicial do Ministério Público. Para a família, a denúncia contra os policiais só ocorreu após forte pressão pública e cobranças na corregedoria.
“A nossa luta é pela memória, reparação e justiça, mas em prol de uma juventude negra, pobre, preta, periférica viva, e do máximo rigor da lei”, afirmou Jacklline. “A minha filha eu já perdi. A luta que fazemos é pelos filhos de outras, para que as vidas deles não sejam ceifadas pelo Estado. Não queremos outros pais com a dor que temos hoje”, completou.
O contexto da letalidade policial no estado Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicam que a polícia fluminense matou 798 pessoas em 2025, o equivalente a quase duas em cada dez mortes violentas intencionais no estado. O levantamento aponta ainda que a maioria das vítimas é composta por jovens negros de 15 a 24 anos.
Enquanto o governo estadual defende que mantém medidas permanentes de treinamento e redução da violência letal, órgãos de controle e familiares continuam cobrando mudanças estruturais profundas na atuação das forças de segurança para evitar que tragédias semelhantes se repitam.









