GERAL

O exército de Janones e a qualidade da informação em uma democracia

“um governo popular, sem informações acessíveis ao povo ou sem os meios para obtê-las, não passa de um prólogo para uma farsa ou uma tragédia — ou, talvez, para ambas”. – James Madison

O livro de Michael X. Delli Carpini, O que os americanos sabem sobre política e porque isso importa, baseia-se em dois pressupostos fundamentais: o de que um público bem-informado é crucial para a democracia e o de que a chave para garantir a existência desse público reside na disponibilidade de uma comunicação de campanha que seja, ao mesmo tempo, envolvente, informativa e acessível.

Entre outras coisas, o ponto de partida de Delli Carpini sugere-nos que iniciativas como a do Exército de Janones na última eleição representa um esforço para dificultar um acesso a informação de boa qualidade, na medida em que tem como objetivo espalhar desinformação. Ao invés de promover a democracia, promove confusão, pois faz da desinformação uma arma política.

Pesquisas do Aláfia Lab indicam que a política é o tema mais associado à circulação de fake news no país (citada por 43% dos entrevistados), o que distorce a percepção pública sobre debates complexos(https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/06/03/pesquisa-fake-news-politica.ghtml).

O uso de inteligência artificial pode acentuar os instrumentos de desinformação, como vimos nessa eleição presidencial. Nesse sentido, o jornalismo tem papel ainda mais importante, contribuindo para que a desinformação não comprometa o debate público.

Temos também as limitações cognitivas, econômicas e sociais dos indivíduos. Pesquisas de opinião e levantamentos institucionais apontam que o brasileiro médio possui um conhecimento limitado sobre o funcionamento detalhado das instituições e do sistema político, embora demonstre interesse e consumo frequente de notícias superficiais.

Levantamentos do DataSenado mostram que grande parte dos eleitores não lembra em quem votou para o Senado em eleições passadas (58%) e desconhece ou sabe muito pouco sobre o funcionamento de mecanismos como emendas parlamentares (69% a 87%).

No livro de Delli Carpini, o nível médio de conhecimento do cidadão era baixo para temas como detalhes sobre a separação de poderes entre os diferentes ramos e níveis de governo; definições de termos-chave como veto, inflação ou plataforma partidária; direitos civis, a exemplo da garantia constitucional de julgamento pelo júri, liberdade de expressão e liberdade religiosa; o posicionamento de candidatos à presidência e de partidos políticos sobre algumas das principais questões da atualidade (como previdência social, saúde e relações exteriores).  O nível de acerto ficou abaixo de 40%.

O nível e a qualidade da informação política de um cidadão não dependem de um único fator, mas do cruzamento de diversas variáveis. Elas determinam o que os pesquisadores chamam de sofisticação política (a capacidade de obter, processar e aplicar dados do cenário público).

Mas, embora o nível de escolarização do brasileiro tenha melhorado, em época de campanha como acabamos de experimentar, a força da desinformação tende a diminuir o tamanho do público que poder participar do processo eleitoral de uma maneira mais clara, com informação mais precisa e, portanto, mais apto a contribuir com o debate público.

Uma ala do Partido dos Trabalhadores, que venceu as eleições presidenciais de 2026, tem aconselhado o presidente reeleito a rejeitar qualquer medida de equilíbrio fiscal. Um de seus assessores disse que a agenda que venceu as eleições é a de aumento de gastos e não a de cortes. O que do ponto de vista da escolha está certo. Mas, isso nos sugere uma pergunta:  como é possível que uma sociedade que está com sérios problemas econômicos por conta de um governo que gasta mais do que arrecada, possa ter escolhido manter essa política? Por que essecandidato não foi duramente questionado essa importante questão?

A resposta envolve a ideia de Delli Carpini de que um público bem-informado é crucial para a democracia. O embate entre políticos na democracia, para além de representar um jogo entre atores que disputam a atenção e o voto dos eleitores, tem também compromisso com a qualidade da informação que circula. Isso importa muito.

Em um ambiente de muita informação falsa, a visualização dos problemas de forma clara é dificultada e a habilidade de enganar passa a ser mais decisiva do que a habilidade de informar e de propor soluções. A eleição vira um jogo de vale tudo.

Infelizmente, o excesso de desinformação poluiu o ambiente eleitoral de 2026. O exército de Janones e todas as iniciativas afins contribuíram para criar uma névoa que impediu o cidadão médio de enxergar com clareza nossos problemas fundamentais. A vitória da estratégia do engano pode significar a derrota de todos em muitos sentidos e certamente da nossa democracia.

André L. Ribeiro-Lacerda é psicólogo social, professor da UFMT, campus Várzea Grande.

Fonte: agro

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