As instituições do Estado precisam adotar a acessibilidade, a clareza e a escuta ativa da sociedade para assegurar que dados e serviços essenciais cheguem a toda a população brasileira. O tema norteou o início do 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública (ComPública), realizado na Câmara dos Deputidos, em Brasília. O evento comemora os 200 anos da Câmara e marca uma década da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública), reunindo mais de 1,8 mil participantes de forma presencial e remota.
Diálogo e inclusão na gestão do Estado
Durante a abertura, gestores apontaram que a atividade vai muito além da simples transmissão de dados, configurando-se como um mecanismo contínuo de escuta. A diretora-geral do Instituto Serzedello Corrêa do Tribunal de Contas da União (TCU), Ana Cristina Siqueira Novaes, ressaltou a importância de adequar a linguagem e os canais às diferentes realidades do país. “Comunicação é diálogo: o cidadão ouve, mas também precisa ser ouvido”, defendeu. A diretora acrescentou que “comunicar para todos do mesmo jeito pode significar, na prática, comunicar apenas para alguns”.
Na mesma linha, o presidente da ABCPública, Jorge Duarte, enfatizou o compromisso de tornar o poder público mais transparente e compreensível. “A comunicação pública precisa ajudar as instituições a cumprir sua missão e permitir que serviços cheguem às pessoas”, destacou. “Quando isso falha, o cidadão paga em tempo, dinheiro, segurança e perda de oportunidades. Perde também paciência e confiança.”
Obstáculos enfrentados pelos profissionais
Os palestrantes detalharam as barreiras diárias na área, que envolvem desde questões estruturais até o avanço tecnológico. Jorge Duarte apontou a falta de pessoal, a ausência de planejamento estratégico e a incompreensão de setores internos sobre o papel do setor. “Passamos a vida explicando o que as instituições fazem, mas não explicamos o que fazemos. Precisamos explicar mais sobre comunicação”, observou.
Já a diretora de Comunicação Social do Senado Federal, Glauciene Lara, abordou o desafio de combater a desinformação em um cenário de saturação de dados. “Comunicar hoje é disputar atenção em um ambiente saturado de algoritmos, interesses econômicos e narrativas concorrentes”, avaliou. A gestora também citou a fragmentação das audiências e a urgência de utilizar a inteligência artificial preservando a ética e a mediação humana.
Legitimidade e alcance global
Para a diretora-geral-adjunta da Câmara dos Deputados, Amanda Maria Ramalho de Carvalho, o jornalismo institucional cumpre um papel defensivo em crises de confiança. “A comunicação pública existe para promover a transparência do Estado, estimular a participação cidadã no debate político e fortalecer a democracia”, afirmou. No cenário internacional, a subsecretária-geral das Nações Unidas para a Comunicação Global, Melissa Fleming, reforçou que a queda de confiança nas democracias exige estratégias diretas: “ir ao encontro do público onde ele está, nos canais que ele usa, na língua que ele fala”.
Premiações e continuidade do evento
A cerimônia de abertura celebrou destaques do setor com a entrega de láureas. A Universidade Federal de Sergipe (UFS) levou o Prêmio Neusa Meller de Audiovisual Universitário, enquanto o professor sênior Wilson da Costa Bueno, da Universidade de São Paulo (USP), recebeu o Prêmio Beth Brandão de Comunicação Pública por sua trajetória na democratização do conhecimento. O congresso segue até sexta-feira com mesas-redondas, minicursos e grupos de trabalho voltados ao fortalecimento democrático.














