O esgotamento mental e a sensação de isolamento têm superado a desilusão com a política como os principais motivos para a ausência de eleitores nas urnas brasileiras, conforme aponta um levantamento inédito divulgado recentemente.
O impacto da dependência digital e do isolamento
A pesquisa Termômetro do Bem Viver, desenvolvida por um projeto da Plataforma Avaaz em parceria com o Datafolha, identificou que aproximadamente 30 milhões de cidadãos — o equivalente a um em cada três votantes — abandonaram os pleitos nos últimos anos. Por trás dessa alta abstenção, o estudo diagnosticou uma forte incidência de esgotamento mental e forte dependência de telas digitais.
Em contrapartida, os cidadãos que mantêm laços comunitários ativos enxergam o regime democrático como um valor inegociável para a sociedade.
O ciclo destrutivo dos eleitores desvinculados
O levantamento classificou como “desvinculados” quase metade dos brasileiros analisados, grupo que inclui indivíduos que já abandonaram o hábito de votar ou que o fazem com extrema raridade. Desse total, três em cada dez pessoas desistiram de participar das eleições devido à ausência de conexões sociais.
“Descobrimos que os ‘desvinculados’ estão em ciclo muito destrutivo”, explicou a diretora do Projeto Desapocalíptica, do Avaaz, Nana Queiroz.
De acordo com a especialista, esse público recorre à televisão e às redes sociais “como uma espécie de anestesia para essa exaustão”. A diretora apontou ainda que os ambientes digitais confinam os usuários em bolhas de opiniões idênticas e fomentam “uma cultura de ódio”, fazendo com que se sintam ainda mais isolados, sem esperança ou culpados pelo tempo excessivo perdido diante das telas.
“Quando essas pessoas se vêem assim culpadas, exaustas e isoladas, elas acham que elas não têm poder de transformar o coletivo e é por isso que elas estão parando de votar”, analisou.
Perfil da juventude e jornadas extenuantes
Os jovens entre 18 e 34 anos representam 44% dos cidadãos considerados desvinculados, evidenciando uma urgência por intervenções sociais. Apenas 20% dessa faixa etária relatam possuir laços comunitários sólidos e bem-estar consolidado.
Nana Queiroz também destacou o peso de jornadas laborais exaustivas, a exemplo da escala 6×1, que limitam drasticamente o tempo livre disponível para o descanso e a construção de relações interpessoais.
Caminhos para a retomada da participação cidadã
Para resgatar o engajamento social, o estudo sugere a implementação de políticas públicas voltadas ao Bem Viver, que envolvam maior proximidade com áreas verdes, facilidade de acesso à cultura, opções de lazer e infraestrutura urbana mais inclusiva.
“Dar bom dia para uma pessoa na padaria já influencia o seu nível de felicidade”, informou a diretora.
Adicionalmente, iniciativas para combater o vício em tecnologias são consideradas fundamentais, a exemplo do modelo do ECA Digital, que combate táticas viciantes como a rolagem infinita e a exposição de menores a conteúdos nocivos.
“Se você quiser reconquistar essas pessoas, trazer às urnas, é preciso criar políticas que alterem a vida real delas, para que sintam que o voto tem um impacto real na vida delas”, frisou Nana.
Por fim, a metodologia da pesquisa baseou-se em parâmetros internacionais para avaliar indicadores de qualidade de vida que costumam ficar de fora de análises focadas estritamente no desempenho econômico ou no acesso ao consumo.

