Abril de 1984. Diante de um estádio Mangueirão lotado, o Uberlândia segurava um empate em 0 a 0 com o Remo e faturava a Taça CBF, equivalente à Série B na época. Mais de 40 anos depois do principal título de sua história, a equipe mineira se recoloca no cenário do futebol brasileiro.
Campeão da Série D nesse domingo (13) após empate em 1 a 1 com o Asa diante de mais de 40 mil torcedores no estádio Parque do Sabiá, o 'Furacão Verde da Mogiana' sopra forte rumo à terceira divisão e amplia um projeto catapultado por um investimento milionário, com direito a velhos conhecidos dos gramados e até a venda do próprio nome a uma empresa privada.
Situada no coração do Triângulo Mineiro, a cerca de 600km de São Paulo, a cidade de Uberlândia foi, durante décadas, impulsionada pelas ferrovias e a localização estratégica entre algumas das principais rodovias federais. Com um dos maiores polos logísticos do país, o segundo maior município de Minas se desenvolveu até se credenciar entre os cinco melhores em qualidade de vida entre aqueles com mais de 500 mil habitantes, com a exceção de capitais, como mostrou o último ranking do Índice de Progresso Social (IPS) de 2026.
Até a Copa do Mundo de 2014, com construção das arenas multiuso Brasil afora, a cidade ainda abrigava o oitavo maior estádio do país. Mas como povoar os mais de 50 mil lugares do Parque do Sabiá, acompanhar o desenvolvimento local e ainda atender uma demanda reprimida de gerações de torcedores nas arquibancadas? Foi essa a questão que instigou uma dupla de empresários mineiros.
Dois dos responsáveis por retirar o Athletic do amadorismo e alçá-lo até a Série B em oito anos, Fábio Mineiro (CEO) e João Castro (diretor executivo) viram no Uberlândia a oportunidade de reeditar o sucesso com a equipe de São João del-Rei. Com a venda de 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) em junho de 2025, o clube passou a ser conduzido sob nova gestão, com investimento mínimo estimado em R$ 150 milhões em 15 anos.
"A gente fez um estudo bem aprofundado da realidade que o clube se encontrava, da realidade econômica da região, da realidade estrutural do clube e, a partir disso, escolhemos o projeto do Uberlândia. Há um ano, chegamos e começamos o trabalho inicialmente de estruturação de retorno das categorias de base. O clube estava com o seu departamento de futebol de base inativo. Então, estruturamos o CT, que precisava de algumas melhorias e modificações e, a partir disso, formamos um elenco", conta João Castro.
"Concentramos os nossos esforços no que era o grande objetivo da temporada desde que a gente assumiu, que era buscar o acesso na Série D do Campeonato Brasileiro, uma Série D diferente, ampliada com 96 clubes. A partir disso, fica uma competição mais difícil, mais competitiva, que encontramos uma realidade também com outras SAFs, outros clubes com muito investimento, que brigariam fortemente por essa vaga", completou.
Em abril deste ano, o Uberlândia gerou repercussão global ao acertar a venda dos naming rights para a Uber, em acordo inédito firmado pela companhia de transporte por aplicativo no mundo. "A gente tem feito um trabalho muito próximo também de atrair as grandes empresas para o nosso projeto. Tivemos um case que foi destaque internacional, que foi trazer uma grande empresa de mobilidade para que a gente conseguisse incorporar no nosso naming rights, um trabalho que a gente fez nesse início de trajetória da SAF, colocando de fato o Uberlândia em grandes patamares. Então, fizemos esse trabalho de resgate e ficamos muito felizes, principalmente com a resposta do torcedor", completou o diretor executivo.
Nesse domingo (13), no empate que selou o placar agregado de 3 a 1 na decisão, mais de 40 mil pessoas foram ao estádio Parque do Sabiá para empurrar a equipe rumo ao título da Série D. Um reflexo de uma nova realidade que, segundo João Castro, pode ganhar proporções ainda maiores.
"A gente tem levado o torcedor ao estádio em médias que o clube não via há muitos anos, e isso é fruto desse grande trabalho. Temos o privilégio de ter à nossa disposição um estádio como o Parque do Sabiá, que já recebeu Seleção Brasileira e outros grandes jogos de competições nacionais e internacionais. Fizemos uma parceria com a Futel, que é o órgão público que administra o estádio, ajudamos na remodelação do gramado, na troca de iluminação. Então, é um privilégio. Mas, para além disso, temos um desafio muito grande. No Campeonato Mineiro, mesmo sem trazer, por questão de tabela, um dos dois grandes clubes da capital, a gente teve a terceira melhor média de público do torneio, com sobras em relação a outras equipes do interior mineiro, provando que Uberlândia, de fato, tem a terceira maior torcida de Minas Gerais, atrás de Cruzeiro e Atlético-MG", avaliou o diretor.
Com o acesso garantido à Série C de 2027 e o título da quarta divisão, o Uberlândia já alcançou R$ 1,62 milhão em arrecadação, abarcando o máximo de premiações das cotas distribuídas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para o torneio.
Se fora de campo a volta do torcedor é uma realidade, dentro dele velhos conhecidos do futebol brasileiro pedem passagem. É o caso de Kayke Moreno, atacante com mais de 280 gols pela base do Flamengo e com passagens ainda por clubes como Fluminense e Santos. Outro nome com bagagem Brasil afora é Tomas Bastos, que integrou a campanha do Botafogo pelo retorno à elite na Série B de 2015. À beira do gramado, quem devolve a alegria aos torcedores é Danilo, ex-jogador bicampeão mundial e da Libertadores por São Paulo e Corinthians, além de quatro títulos do Brasileirão.
Antes de assumir o Uberlândia, o treinador iniciou a carreira à beira do campo na base do Corinthians, onde foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2024. Dois anos depois, ganhou destaque ao levar o Pouso Alegre até a semifinal do Campeonato Mineiro, quando caiu para o Cruzeiro. Ainda assim, para ele, o maior desafio ainda está por vir.
"Eu tenho isso em mente até quando eu jogava futebol. Acho que o maior desafio vai ser o que está pela frente. Não adianta eu pensar para trás, o que já ficou. O que eu tenho que fazer é aqui e agora no Uberlândia. A gente vai só conseguir encher estádio é com resultado e ganhando", defendeu o atual técnico, que ainda rasgou elogios ao destaque do time na temporada.
"Tem um jogador aqui que é alto nível, que é o Tomas Bastos. Ele já jogou em vários clubes, mas hoje ele se encontra nos melhores momentos da carreira dele. É esse camisa 10 que chega na área, que finaliza, sempre cobro isso dele. Camisa 10 igual no Brasil tem poucos, porque tem camisa 10 que só toca para o lado, só lança, ele não. Ele tem o lançamento, finalização, entra dentro da área, por isso que está entre os artilheiros da equipe", disse.
Fonte: espn.com

